Lopetegui e os melhores treinadores de clubes europeus

Lopetegui e os melhores treinadores de clubes europeus

A contestação ao técnico Julen Lopetegui vem de longe, expressa em comentários que pedem a sua saída, que afirmam “não perceber nada de futebol” e que o acusam de nada ganhar. Não fosse a estrutura portista, liderada por Pinto da Costa, o treinador já teria sucumbido. Mas será Lopetegui esse profissional mediano de quem a massa associativa portista não pode esperar nada?

Fomos analisar à lupa a performance dos treinadores de topo à frente de clubes europeus, incluindo os portugueses que dão nas vistas em equipas estrangeiras. Recolhemos e revirámos os números das épocas de 2014/2015 e 2015/2016 (até 28 de Outubro de 2015), período correspondente à estadia de Lopetegui no Porto, à procura dos principais indicadores que determinam a competência e os resultados de 25 treinadores:

André Villas-Boas (Zenit)
Arsène Wenger (Arsenal)
Carlo Ancelotti (sem clube, Real Madrid)
Diego Simeone (Atlético Madrid)
Jorge Jesus (Sporting, Benfica)
José Mourinho (Chelsea)
Julen Lopetegui (Porto)
Jürgen Klopp (Liverpool, Borussia Dortmund)
Laurent Blanc (PSG)
Leonardo Jardim (Mónaco)
Louis van Gaal (Manchester United)
Luis Henrique (Barcelona)
Manuel Pellegrini (Manchester City)
Marco Silva (Olympiacos, Sporting)
Massimiliano Allegri (Juventus)
Paulo Sousa (Fiorentina, Basileia)
Pep Guardiola (Bayern Munique)
Phillip Cocu (PSV)
Rafael Benítez (Real Madrid, Nápoles)
Roberto Mancini (Inter de Milão)
Ronald Koeman (Southampton)
Rudi Garcia (Roma)
Rui Vitória (Benfica, V. Guimarães)
Unai Emery (Sevilha)
Vítor Pereira (Fenerbahçe, Olympiacos)
Todos estes são conhecidos e reconhecidos mundialmente e alguns figuram mesmo entre os mais bem pagos, casos de Mourinho, Ancelotti, Guardiola, Wenger, Van Gaal, Villas-Boas, Klopp, Blanc, Benitez e Enrique, este último auferindo um salário muito semelhante ao de Jesus. Mas nem todos ganham troféus.

No TOP10 dos treinadores com mais troféus oficiais arrecadados durante o período de estudo destacam-se Enrique, que levou para Barcelona uma Liga dos Campeões e uma Supertaça Europeia, e Blanc, que fez um pleno interno na época passada e ainda deitou a unha à supertaça francesa de 2015. Há quatro portugueses neste lote, tendo Jesus conquistado três troféus. Dos 25 treinadores analisados, cerca de 1/3 deles não ganhou nada. Aqui se inclui Lopetegui, mas também Van Gaal e Pellegrini, por exemplo, os dois homens da cidade de Manchester. Quisemos ir mais longe e saber se os resultados ao final do ano, os títulos ganhos, reflectem ou não o percurso jogo a jogo de quem comanda uma equipa.

O TOP10 do rendimento, ou seja, de quem aproveita mais pontos entre aqueles que é possível obter, reserva a primeira grande surpresa: Lopetegui surge no pódio, apenas superado pelos super-técnicos Enrique e Guardiola, curiosamente todos espanhóis e todos na casa dos 40 anos de idade e, portanto, com um grande percurso pela frente. Com 76,6% de pontos aproveitados, o treinador do Porto supera Jesus (75,5%). Ora, se Jesus bateu claramente Lopetegui em títulos conquistados, quer isto dizer que os pontos perdidos pelo espanhol terão sido desafortunadamente em jogos cruciais, ao contrário dos pontos perdido pelo seu rival. Repare-se que Marco Silva, despedido por Bruno de Carvalho, também figura na tabela, com 71,9% de aproveitamento.
No que toca a vitórias conquistadas, Jesus e Lopetegui surgem colados a meio da tabela dos 10 melhores. O actual treinador do Sporting venceu 45 dos 64 jogos que disputou, sendo que o treinador do Porto ganhou menos um no mesmo número de jogos, tendo este tido, no entanto, um percurso mais difícil, que incluiu uma mais longa caminhada na Champions – a tal que culminou com uma derrota pesadíssima em Munique.
O treinador menos perdulário é precisamente o espanhol que ocupa o banco dos dragões, superando todos os grandes treinadores europeus e com uma grande vantagem. Até agora perdeu apenas cinco jogos ao comando dos azuis e brancos: Bayern Munique (1-6, ditando o afastamento da Liga dos Campeões), Marítimo por duas vezes (1-2, ditando o afastamento da Taça da Liga, e 0-1 para o campeonato, numa jornada em que era proibido perder pontos, face aos resultados dos rivais), Benfica (0-2 no Estádio do Dragão, derrota que a não acontecer permitiria provavelmente aos portistas sagrarem-se campeões no final das 34 jornadas – recorde-se que as duas equipas chegaram ao fim separadas precisamente por três pontos) e Sporting (também em casa, por 1-3, que ditou o precoce afastamento da Taça de Portugal). Confirma-se então que o Porto de Lopetegui perdeu pouco mas em jogos de elevada importância. Quer isto dizer que as falhas em cinco jogos cruciais determinaram a diferença entre perder todos os títulos ou poder ganhá-los.

Sem surpresas, o melhor balanço de golos pertence a Guardiola, com uma média de dois golos marcados a mais, por jogo, do que aqueles que sofreu. Jesus e Lopetegui surgem praticamente empatados nesta matéria, separados apenas por uma centésima a favor do português. Três outros lusos fecham o TOP 10 – Vítor Pereira, Villas-Boas e Marco Silva – confirmando que na actualidade temos excelentes técnicos espalhados pela Europa.

O melhor ataque pertence ao Barcelona de Luis Henrique e ao Real Madrid de Ancelotti, sendo que neste momento o treinador italiano se encontra sem clube. Nesta matéria, Vítor Pereira supera Jesus, mercê de um Olympiacos 2014/2015 goleador, e Paulo Sousa posiciona-se à frente de Lopetegui. Não se pense, no entanto, que o ataque do Porto não funciona na era de Lopetegui – a título de comparação, os dragões de Mourinho de 2003/2004 conquistaram a Champions, a liga e a supertaça portuguesas marcando, em média, menos 0,36 golos por jogo (1,78 contra 2,14).
As principais equipas portuguesas demonstram que guardam bem as suas balizas. Apesar da goleada sofrida em Munique, Lopetegui lidera o TOP10, tendo sofrido 40 golos nos 64 jogos disputados – menos dois que Jorge Jesus, que sobe pela primeira vez ao pódio. O Porto melhorou com Iker Casillas, sendo que nesta época Lopetegui leva apenas 0,58 golos sofridos, em média, por jogo disputado, e continuando invicto em todas as competições.

​Finalmente, um TOP10 dedicado ao fair play. Neste indicador, que mede o número de cartões recebidos pelas suas equipas, dominam os treinadores holandeses e espanhóis. Uma palavra para Leonardo Jardim, que coloca o seu Mónaco como uma das equipas menos indisciplinadas. Lopetegui e Jesus não surgem na tabela, ocupando o espanhol a 11ª posição, com 2,13 cartões por jogo, e o português a 18ª com 2,47 cartões por jogo – os jogadores de Lopetegui bem mais disciplinados que os de Jesus.
Em jeito de resumo, algumas notas. Julen Lopetegui bem se pode queixar de falhar em partidas da maior importância, mas pode estar muito satisfeito com o seu desempenho no que respeita ao jogo a jogo. Os adeptos portistas são os que menos viram a sua equipa perder na Europa destes 25 grandes treinadores, e também os que menos choraram os golos dos adversários. O treinador espanhol ao serviço dos dragões intromete-se entre os melhores do mundo, sendo claramente um dos mais equilibrados segundo a leitura que se pode fazer dos indicadores que apresentamos, e promete uma carreira de muitas conquistas.

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Jorge Jesus, o técnico mais bem pago em Portugal, conquistou três troféus – dois pelo Benfica e um pelo Sporting – e está quase tudo dito. Desta vez, o treinador de 61 anos não falhou nos momentos decisivos. Já Rui Vitória, que transitou de um clube médio para o Benfica, não se apresenta ainda em destaque em nenhum dos parâmetros medidos – é 23º em aproveitamento de pontos, 22º em vitórias, 24º em derrotas, 23º em balanço de golos, 22º em golos marcados, 18º em golos sofridos e 24º em disciplina,
Este estudo revela ainda o aparente declínio de José Mourinho, que apesar de ter conquistado a liga inglesa na época passada, não está a conseguir manter níveis sustentáveis que se enquadrem nas prestações daquele que em tempos foi indiscutivelmente o melhor do mundo. Uma última palavra ainda para Jürgen Klopp que nestas duas épocas se tem revelado um dos piores entre os 25 treinadores estudados, não apresentando resultados em conformidade com o elevado salário que aufere.

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